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Cidade: salva a dor

Agora mora a cidade
dentro de mim
Dentro de mim a cidade
Agora mora a cidade
em mim

Sem morar onde mora a cidade,
moro e morro e vejo-me
mouro do morro morrendo
pra cidade onde morei

E só não sou cidade, pois,
pleonasmo seria
e orgasmo me daria um filho da cidade
onde já não estou – nem eu nem o filho

E faço a cidade
como quem se refaz a ser refeito
Como quem se introduz
e se traduz em cidade
pela língua da cidade
que reaprendo a inventar
e que me inventa o aprender:
na esquina, na usina
na colina, na chacina;
enquanto cidade é aspirina
Eu: água/Eu: aspirina/Ela: copo
Ela: água/Eu: corpo/Ela: mar/Eu: ilha

Foi somente passeio
Devaneio, devaneio; meu inteiro caminho meu
[rua]

Cidade nua do céu
Vestida para mim quando furo o sinal
da avenida
Cidade em vida, vida que me ocupa
e, vadia, me despreocupa
Que me cutuca dentro de mim
(ela, a vida/ela, a cidade)

Emancipa-se a cidade
para fora de mim
Eu: mim, ela: nós
Noticiário: voz, sono: dia

Escorre, cidade,
pelas suas luzes – aquarela elétrica,
sabor da pêra temporal – quando ressoa
na minha boca, no meu transbordo cotidiano
Chove ou arde, cidade! Que lua não se acanha

Fuja, cidade, para a saudade
Escapa, cidade, pelo cano do lixo,
pelo ralo da pia deste apartamento pós-moderno; belo para o inferno, céu para o paraíso, feio do precipício.

[pausa]
Sexo na sala, pernas diagonais desenhadas na tapeçaria.
Exala cidade, meu, e sexo dela.
Cidade bilíngüe desmilinguindo minha língua em apenas uma – sua

Esvai-se, cidade, evasivamente
sem dar-se conta de si, como eu por sobre
suas calçadas a passearem por mim.
Reinventando horas na esteira dos momentos, na carreira do vento, sem gesto nem intenção forçada

Cidadenatureza, sua dureza chumbada e bela
disfarça seu medo de invadir-se, de incendiar-se como verdadeira Roma Negra,
quando te chamo de amarela,
quanto te vejo banguela
por entre as bocas de seus miseráveis;
como se faltasse parte sua

Vejo cruzar-se em seus céus
(mil céus seus sim, cidade...)
os recados eletromagnéticos,
as mensagens decodificadas na mudez do pobre, na frieza do cobre
que recobre seu céu de agora
nesta cor de Outubro

Cidade simplesmente ascendente,
inconscientemente decadente para mim,
que lhe escrevo este poema disforme e pouco firme, de longe,
embora sentado na sua noite.

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