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Tό ζῷον

pensei em ir ver ela naquele dia, mas depois des-pensei. Grande amiga não pode ser habitada pela alma do amigo tão suja, maltratada.

sabia que ela não poderia estar mais lá no outro dia, e aquele dia se aproximava, como um chamado.

comecei a habita-la de outra forma.
sonhei com ela, e quando não sonhei disse que sonhei.


ria e lembrava os mais segundos do dia.

no outro dia ela havia des-existido, continuei falando dela. Para todo mundo agora. Cheguei no bar, ou no café, na festa, e disse que entre a vida e a morte há uma vida que sempre pode ser lembrada, no furor de sua agitação, no corpo de outrem. A vida só existe no movimento da invenção e des-invenção dos seres: daquilo que é palavra além da vida, ou além das palavras; daquilo que é além do viver e do dizer. Por aí a vida não basta, nem a morte basta. Basta viver, e isto é realizar qualquer coisa, tanto o nascer como um morrer, o brilho do sol, a descida ao centro da terra, da Terra, dos planetas aos corpos, em cada palavra vivenciada. Naquele dia, que como eu já havia lembrado, fui a qualquer janela e admirei a plena admiração do mundo: a beleza do tempo havia se unido a ela. Mundo mudado, porém não tão esquecido. Des-esquecido. Mundo novo, outras novas vidas, e tantas saudando aquela.

ao mesmo tempo, a indiferença do mundo, a plenitude indiferença do espírito-corpo.

viver é filosofar, um vivenciar o des-existir na invenção, um inventar existir além da ação e do inventar, do dizer ao dizer, do ser ao não-ser. Física é metafísica, metafísica é física.

isso nos dizem algumas palavras gregas. Gregas e como próprias raízes de um pensar a filosofia como vida, e a vida como filosofia. Se a filosofia for um dos modos de encontro com o para além, no próprio modo do agir e pensar, há a possibilidade de que as palavras, enquanto seres reais, humanos e pronunciadas por seres materiais, presentifiquem o próprio extraordinário, o que está, e surge estando sempre, para além e aquém delas próprias, o divino e sagrado de todo emergir e surgir, seja da aparição ou do retraimento, do desaparecimento do corpo. O ser humano, enquanto imanente à sua própria matéria corpórea, presentifica tudo aquilo que é transcendente a ele e à utopia real de cada transcendente, isto é, o inefável do pensamento, através das próprias palavras ditas e ouvidas, sobretudo vivenciadas, e a realiza em si, no seu modo de ser, no movimento originário de todo viver a cada dizer, no des-existir e continuar vivo no dizendo de cada ser que diz.

viver é como escutar o mistério de cada emergir e desaparecer, é realizar a presença do ausente, desabrochar em outro viver, em outra realização: física e metafísica; material é imaterial. viver é des-viver para surgir depois de todas as vidas. realização.

tό ζῷον que é criatura viva, animal vivo, ser vivo, realiza a presença do que é des-existir misterioso, e des-aparecer extraordinário, enquanto um outro fenômeno, enquanto viver em outras criaturas vivas, como no céu ou na terra, ou em fenômenos físicos, de ordem imanente. Palavra que indica o que existe em vida e no para além da vida, no aquém da palavra e do dizer, Palavra viva como qualquer Palavra: Τό ζῷον. Como um paralogismo, uma contradição, uma ambivalência, uma ressonância, harmonia, em cada ser de todos os seres, nos seres de todo ser.

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