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Des tarde

tarde na praia com a dúvida:
se por debaixo daquele avião na altura da cirrus
girava um mundo veloz e moderno
num espaço maior que a dúvida

agora gira este mundo visto da praia:
somente lugar no próprio mundo:
de onde se avista o não-movimento do lugar?

parece que não,
é a poesia que empurra o mundo que mais parece ser feita com coisas que estão fora dele

é a mesma? perguntaria Horácio

onde habitam as memórias não lembradas?
qual apartamento?
num bananal enquanto se brincou?
na mão da moça?

a tarde questiona na praia:
para onde levaria a brincadeira no pensamento de que
o mundo e seu movimento
são indícios de alguma realidade que se insinua?

e as manias e maneiras de falar de si:
não são brincadeiras da alma bêbada e deste mundo?

a tarde capta, suga, imobiliza
como aquela no jambeiro ou no barco ou na colina

palavras todas vindas do mar
emitindo sons quando quebravam na praia
anônima decadente
formando montes na areia
da costeira da cidade exigindo poesia ao invés de abandono

o avião já distante
ecoava grave sua saudade na gravidade assoberbada
e o mundo não passava da inquietude dum corpo em agoras,
já no alto da tarde

como se a palavra tudo e a palavra no-mesmo-tempo
traduzissem, sexuando-se como arte, o caos;
o poeta velho diria: “o mundo não tem explicação”

e isso já era depois de:
o mundo possui a sua própria inexplicabilidade
imerso em complexidade da palavra:
tudo-ao-mesmo-tempo

palavras na praia
ou qualquer coisa inventada como qualquer coisa
falavam apenas do que não revelavam,
eram incapazes de, todas juntas,
explicar um mundo que as cuspia céu afora

tudo do que se falava era humano

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