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Tentativa de mim

enquanto sou uma tentativa de mim,
a pedra já é, chegou-se
eu, que de mim me afasto e me aproximo
não sou feito esta pedra,
a não ser pela impermanência;
ambos demoram séculos ou segundos, mas fenecem

e na condição de experiência de mim mesmo
sou lugares no mundo,
fora e dentro desta pele que me abraça
eu, que me aproximo da pedra pela memória,
me afasto dela pela possibilidade de ser lugares
(como agora, estava eu em mim e em breve já não estarei)

e enquanto a tarde parou-me, veio-me : o melhor lugar de mim é a incerteza de estar completo em mim;
melhor é o incerto do que a pedra
melhor deixar-se do que saber-se
melhor des-alcançar-se do que chegar sempre a si
melhor ainda: balançar nas possibilidades de si-não-si

possivelmente a liberdade esteja ai,
não em ser como se é,
mas em ser como se fosse e como se não fosse
(a pedra, embora sendo, zomba de mim: este corpo-miúdo bêbado de mundo)

mas eu, nesta tarde de espera num aeroporto brasileiro,
só tenho esta pedra na qual me sentei e que me ensina movimento;
me levanto exausto para o embarque
a pedra está indiferente
eu: adeus, deixar-me-ei
ela: encontro

deixar-me-ei por que sou lugares de encontrar comigo
(a única possibilidade para mim mesmo)
a pedra já se sabe inteira, e por lá, na sua metamorfose com-vento(embora parada) ficou;
eu não,
experimentei-me voador,
embora parado feito pedra num assento de um boeing 737.

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