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Quase e impossíveis

Pedi que ela desenhasse o impossível.
Não me olhou e inclinou a cabeça para o ombro.
Pus em cima da mesa um lápis e uma folha.
Vagarosamente foi levantando a cabeça e os cabelos escorreram-lhe a cara.
- O impossível é colorido.
Puxei do outro lado da mesa um punhado de outros lápis e coloquei defronte a ela.
Consentiu-me um sim tímido com a cabeça que, embora tímido, dizia certeza.
Pegou o amarelo, o verde e o roxo, quebrando ao meio um por um.
Ao franzir da minha testa, alertou-me.
- É que o colorido do impossível é quase colorido.
Depois foi a vez do laranja, do preto e do marrom... e foi partindo ao meio aquelas cores até a última.
Ia alinhando os pedaços dos lápis por cima da folha, alternando os tocos. Às vezes parava para rearranjar as cores em pedaços e entortava o pescoço, ajeitava a franja.
Fui vendo um nariz, dois seios, um lábio, um brinco – finalmente era uma cara e ela revelou.
- Sou eu.
- Não parece.
- Claro que não. Se eu parecesse comigo não seria o impossível.
(...)
- E se você parecesse com você?
- Aí seria quase-eu.
- Como é quase-você?
- Quase-eu é possível.
- E o quase, o que é?
- Quase não existe. Que existe é impossível.

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