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Poesia, sonho e psicanálise

[Entrevista concedida a alunos de Psicologia da Unifacs acerca da relação entre poesia, sonho e psicanálise]




Não há dúvida do elo existente entre poesia, sonhos e psicanálise.
A poesia expressa, muitas vezes, sensações, sentimentos, desejos ocultos, impulsos inconscientes despistados pela razão – assim como os sonhos.
Para que a mensagem poética seja compreendida e interpretada, é preciso criar e explorar uma linguagem que propicie a comunicação.
Esta linguagem é todo um sistema organizado de sinais(símbolos) associados às palavras, que, por natureza, carregam junto com elas a porção imagética do processo de significação de todas as coisas vistas pelos olhos ou imaginadas pela mente.
Por isso o poeta é também, além de um inventor de linguagens, um criador incessante de imagens;imagens estas que também compõe os sonhos, como numa película, onde as imagens vão sendo captadas e interpretadas pela imaginação.
A palavra, desta maneira, surge para o poeta como instrumento que materializa a imagem por ele desejada. Um poeta sem a palavra é um sonho sem imagem.
O poeta também é um ladrão de si mesmo, pois furta da sua capacidade imaginativa também o substrato que integra uma parcela do seu inconsciente e, assim como nos sonhos, utiliza-se de elementos que estão além do universo consciente da psique para se reproduzir – desta parcela inconsciente também se mantém os sonhos e as suas expressões e etapas.
Uma das etapas do enredo onírico encerra em si um sentido latente, ou seja, o que de fato revela o desejo que reside no indivíduo. Este sentido latente também opera o processo criativo do poeta, pois este, ao longo da sua vida, interioriza suas experiências que, muitas vezes, ficam contidas e represadas no eu, pra depois, em poesia, externar-se(até,quem sabe, catarticamente) em forma de palavras e símbolos. Desta maneira se fazem poemas que remetem a experiências infantis, amores edipianos e visões fantasiosas a partir do olhar da criança.
Todo esse pano de fundo de desejos latentes à alma e ao sentimento do poeta são construídos a partir de suas vivências – o escritor é o que escreve.Por isso o poeta constantemente revisita os outros “eus” que carrega dentro de si, entrando em contato profundo, quase sempre, com parcelas da sua personalidade que apenas se revelam a partir dos sonhos.
Por fim, a experiência do sonho é transcendental no sentido em que exibe imagens distintas e desconexas no espaço e no tempo, muitas vezes dimensionadas diferentemente em relação às dimensões experimentadas pelos sentidos no cotidiano do indivíduo. Muitas vezes no sonho o sujeito se encontra inserido num espaço e aparece noutro, já em outro tempo, mais envelhecido ou mais jovem. Essa experiência transcendental dos sonhos é experimentada muitas vezes no ato de fazer poesia, posto que a escrita dá liberdade ao poeta de ocupar espaços oníricos, de dimensões físicas e psíquicas diferentes das da realidade que o circunscreve...Ou seja, a partir da poesia é possível criar espaços que figuram nos sonhos(espaços de narrativas fragmentadas espaço-temporalmente) através do fluxo de consciência(de James Joyce), reinventando sonhos ao reinventar a poesia.
Um dos caminhos trilhados pelos poetas,como já dito, é o mergulho no poço sem fundo do inconsciente que permeia cada psique; o poeta adquire então nestes caminhos faces outras que se multiplicam na sua obra em diferentes momentos da sua produção. Há, neste mergulho, o encontro do poeta com outros poetas que coexistem dentro dele, se entreolhando e, muitas vezes, dialogando entre si numa mesma obra, como se houvesse a dissolução de um eu-lírico, dando lugar a diversos outros eus-líricos.É neste sentido que o fazer poesia guarda dentro de si a constante experiência de um Olhar Outro.O Olhar Outro aparece para o poeta quando ele se depara observando ele mesmo por um outro olhar, ou seja, a partir do campo de visão de outro eu-lírico. Isso lembra, claramente, Lacan e a sua ideia de que o essencial no campo do observar é sermos olhados, sendo necessário para isso haver um Olhar Outro.
Nessa perspectiva o poeta, e o seu contato consigo mesmo, se dá de maneira a pluralizar cada vez mais a sua obra. Outro ponto de interpenetração entre as ideias de Lacan a respeito do sonho e a linguagem da poesia reside no fato de que, na verdade, não somos sonhadores e sim sonhados.
O poeta primeiramente cria a sua linguagem e a utiliza para reproduzir através de palavras suas imagens. Ao longo do seu processo criativo ele vai se emudecendo como criador de linguagens e se projetando como sendo a linguagem criada por ele próprio.A esta transição entre criar a linguagem e sê-la chamo de “des-existir” – o poeta des-existe como criador para existir como criatura. Na verdade, assim, des-existimos como sonhadores para sermos somente a expressão viva dos nossos próprios sonhos.

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