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O nome da coisa

Disse que ia ver o mar e foi.
Caminhando vagarosamente pela areia, afundando os pés em carícias de grãos, em tudo que era pedaço de história do mundo.
Sentou-se.
Cadê minha história? Cadê tudo que é do mundo e que me pisou? Cadê tudo que é meu e que pisa mundo? Cadê? – questionava-se anonimamente como se aguardasse estrela polar em hemisfério Sul, pois algo nela não desejava resposta, apenas pergunta.
Ela adorava estrelas; seu sonho predileto era quando ela pulava de uma em uma. Sonho para ela era contato sem toque ou um rascunho do dia. E o sonho dela era só isso.
E quando não sonhava ou não se lembrava do sonho cismava em inventar qualquer coisa semelhante para que pudesse se sentir saltadora de estrelas por mais minutos. Achava que ao dar os pulos siderais compunha o céu eterno com um pouco do que era breve, pois ela não iria durar tanto quanto estrela, mas era como se fosse uma.
E a história dela? Cadê? Seria simplesmente a história de uma vida que saltava por entre estrelas?
Cansou-se de tantas perguntas e de tantos “cadês”. Resolveu procurar sem questionamento, enquanto vivia o cansaço que lhe abateu: era de viver cansaço e ressuscitar minuto. Cada minuto era como uma história sem fim.
Afundou ambas as mãos timidamente na areia fofa. Pensou: mas do que vale achar a minha história se é cansativa tal busca?
Desistiu da história, da sua própria, e resolveu, enfim, apenas respirar como se aquilo fosse a única forma de se sentir dona de si e não vácuo numa história qualquer.
De mãos afundadas na areia, pensou que tocava magma, pois abaixo tudo era mais quente. E se tocasse o magma, então, já estaria liquefeita a carne e o sonho.
Assustou-se e, bruscamente, retirou as mãos da areia, as espalmou ao vento e viu o mar entre seus dedos.
Percebeu, entre dedos, que ventos namoravam ondas e que ondas namoravam ventos. Concluiu que as coisas se namoravam...querendo permitir que outra vez suas mãos namorassem areia.
Afundou-as, agora, mais profundamente e com mais força do que antes, dizendo alto: que há por debaixo de mim neste ponto do mundo?
A resposta eram os chiados das marolas mansas de uma praia de baía.
Ia mexendo vagarosamente as mãos dentro da areia, escavando o mundo(imaginava ela), revolvendo cada molécula de oxigênio daquele pedaço debaixo do chão do mundo – sentiu o mundo respirar junto a ela ou qualquer coisa assim. Ia sem medo expandindo toques até as extremidades de um sentir somente dela. Pensava: era o sexo dela com os pedaços do tempo. Cada grão daquele era pedaço da história de tempos que ela não viveu;já não esperava nada daquela experiência senão um contato com os tempos das coisas fora do seu.
Gritou: tempo, eu toco, toco eu, tempo!
Eis que em susto tirou abruptamente as mãos do fundo do mundo: havia encontrado algo ali.Tomada de euforia, enfiou outra vez a mão já na areia fofa e solitária e, de dentro do mundo, emergiu um retrato.
O olhou horas sem final. Uma árvore e um horizonte desfocado a perder de vista.
E deu um nome à árvore: esperança.
Aquela árvore agora seria dela e tinha um nome; a árvore que nascera do fundo do mundo e da areia na qual ela tentava entrar em contato com pedaços de tempos que não foram os seus.
E por que esperança? – resmungou
Não sabia o porquê do nome da coisa. Simplesmente gostava de esperança, gostava...
Era, para ela, qualquer coisa que fazia sentido de existir por si mesma, embora o mundo estivesse ciente de que se tem esperança de algo. Entretanto, para ela, se tinha esperança e nada mais depois disso.
Limpou a esperança ainda salpicada de areia e des-soterrou-a por inteira. Sabia que do seu contato com o tempo, naquela tarde, havia emergido a esperança e disse para si: será que cada pedaço do chão do mundo haveria de ter um retrato da esperança?
Não sabia.
O que sabia era que, a partir dali, carregaria sempre com ela a história e o retrato do que resolveu chamar de esperança.
Não lhe interessava se era acaso ou despretensão do juízo do tempo para com ela.
Pôs no bolso a esperança e foi pro mundo.

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