Parou num oiti.
Ventava tanto que nem dava pra lembrar.
Vento era forte que levava até memória, pena, futuro.
Ali duraram horas; inerte conversando com vento, feito rocha e chuva – o vento
lhe dizia do mundo e ele sobre as alturas.
Lá pra hora do susto, ele resolveu voar.
Não seria um vôo qualquer, pois disse ao vento: “vou apostar corrida com você.”
Bateu asas e foi. Foi subindo, planando numa cidade, passou uma estância,
passou uma baía, passou o brejo das Almas – já estava muito alto.
Vento bateu.
Descendo vertiginosamente, mesmo tentando se equilibrar, perdeu altitude e a
tenacidade dos músculos – sua pena, por ora, virara depois do voar, não o
próprio vôo.
Foi ao chão.
De corpo estirado num mangueirão, retrucou com vento: “toda vez que você venta
me sinto mais longe de intenção, pois meu vôo é como dizem ser a vida; se me
venta, morro um pouco e dai, já não posso voar.”
E um silêncio amansou a fúria (como aqueles silêncios que habitam as bocas dos
amantes e o gesto dos que já se cansaram de átomo).
Não hesitou: resolveu voar outra vez – foi.
Desta vez planava sobre um oceano inteiro e já nem sabia o que era terra
e céu; tudo foi uma coisa só quando percebeu que Sol comia a própria luz ao
aquecer o corpo com as claridades refletidas nas águas imensas.
Já satisfeito e mais vigoroso, não temeu o vento – olhava-o de lado e o via
correr junto a ele; e se resolvia caranguejar ao vento, ele ia; se resolvia
somente planar, vento sustentava; se dava na cabeça de glisar, vento glisava
junto.
Sete milhas acima do equador, vento se disse(e se fez) rei: o passarinho entrava
em queda constante, porém paulatina.
Já percebendo que ia, outra vez, morrer mais um pouco, resolveu pelo dizer.
Disse ao vento que se ele não havia, morto se achava o seu corpo. E se ele
forte soprava, era por que nem o mais vivo-corpo podia com ele. Tentou propor
ao vento uma corrente intermediária – nada ouviu de resposta e, enquanto caia,
percebia o vento lhe lambendo cada pata, lhe arrancando cada pedaço.
Exaltou-se em assobio: “mas se não posso voar, do que será feito o existir?!”
“Sou um pássaro!”
E espatifou-se na maré.
Sentiu-se mais um pouco morto, mais um pouco lânguido, mais um pouco trôpego;
estava tonto e à deriva no Mar das Onirices, boiando feito folha naquele sem
fim.
Sem vontade e já exausto daquela corrida com o vento, entregou-se ao sonho –
ele queria sonhar.
Sonhou pela última vez. Depois já seria corpo-morto ao imaginar discurso de
vento...
Em sonho, dizia o vento que ele era só vida. Enquanto se voava sem saber o que
sustentava o vôo a intenção do destino estava garantida. Mas se, em vida, se
desejasse tocar o vento, já estaria mesmo era morto.
Por que – segundo o vento – quando se toca na vida, nada existe.
E, aos poucos, o pássaro foi desfalecendo.
Ia pensando: cada vento que me abateu posso chamar de morte – morri diversas
vezes ao voar e, se morri, foi por que vivi em eterna corrida com o vento ou,
como me disse ele, com a vida.
E sentia um cansaço tremendo pelas entranhas, um cansaço do tamanho da
gravidade que lhe levava ao fundo das águas.
E, então, se cansou de voar e de apostar corrida com o vento. Já havia morrido
diversas vezes – era hora de fazer o vento matar e viver outros pássaros.
E, enfim, esqueceu-se de como voar e viver.
Já afogado pelo esquecimento, mas sabendo que dentro da vida há quantas mortes
se precise para existir, cessou o respirar.
Afundou-se no oceano lembrando do dia em que parou num oiti e desafiou o vento
para uma corrida.

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