Não é na tarde que lembro da vida – nem no vento, nem na conversa. Nada
lembro, mas tudo me lembra; como numa memória esquecida fora de mim, como um
desmaio que não sofri e que houve(um torpor – vertigem – ou derrame de
lembranças para fora do corpo).
E agora tudo me lembra: a tarde, o vento, a conversa(as palavras me lembram).
Eu: ando esquecido de mim embora tudo me lembre; como se o tudo fosse autor do
verbo des-esquecer-se, e como se eu fosse des-há-vendo-me para a cidade, do
avião.
Para mim, nada sou senão passividade de um lembrar; um pedaço à deriva num
curso qualquer de devaneios – como se boiasse, a imaginação, numa tigela cheia
d’água, e como se água fosse me lembrando(ao molhar-me) sem eu dar-me conta de
que água molha ou afoga(mesmo que se tenha sede).
E depois: nota-se: não há distinção aparente entre a tigela(onde vivo
semi-imerso) e o mim(onde vivo submerso nos pronomes que tenho).
Pois me esqueço e, para lembrar de mim, aquela água inventa meus outros
nomes; a cada dia água me pondo um nome outro que, outrora, não havia. E eu nem
posso me dar conta que sou igual ou in-diferente por que nada lembro, por que
tudo me lembra.
Também não lembro – curioso – que plantei uma árvore ou que fui por
ali-aqui-lá-ir, que fui com um ir(ir: do verbo esquecer-se)e com um saber(do
verbo: cotidianizar). Como se nem o cotidiano me revelasse o espanto de um
poema ou um perfume outro no travesseiro; como se eu não dormisse por que já
nem lembro como se faz.
Mais interessante é que se esqueço palavra ou se nela tombo, é ela – que fora
de mim – lembra que ela lembra, que eu não.
E daí: como posso saber que palavra me lembra sem saber como é lembrar? É por
que ela diz:”escrevo a história; eles somente fazem parte dela”.
Mas se eu lembrasse só o que lembraria faria parte de mim, o resto seria poema.
Eu seria a história e não parte dela(ou de mim).
Melhor então é ficar com o esquecer do que lembrar a toa.

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