Ela
costumava dizer que as coisas sem nome namoravam impossíveis e que preferia não
ter um nome enquanto fosse sempre tarde.
-Acho que quero namorar você.
-Tem amor?
-Ainda não – mas tenho vontade.
-Vontade de que?
-De ter amor por você.
-E você acha que a gente pode ter amor? Acho que amor não é coisa de se ter.
-Se tem sim. Como se pode dar algo que não se tem?
-Como é dar amor?
-Não sei, mas já vi darem.
-Viu onde?
-Na televisão.
Ele riu daquela miudeza. Depois retomou.
-Namorar você seria bom, mas não sou apaixonado.
-Não precisa ser apaixonado. Só precisa ter vontade de se apaixonar. Você tem?
-Tenho.
-Então já basta.
-Como assim já basta?
-Quando alguma coisa já basta não é preciso explicar mais nada.
-Onde aprendeu isso?
-Vi na televisão também.
-Você não acha que na televisão é tudo inventado?
-Acho.E tudo fora dela também é.
-Não acho.
-Então me diga uma coisa que não é invenção...
-Um fato não é.
-Fato pode acontecer em sonho?
-Acho que pode – ele hesitou.
-Então fato é invenção. Tudo que acontece em sonho é invenção.
-Ora...que não é invenção?
-Nada. Tudo é.
Ele ficou preocupado com o amor outra vez.
-E a vontade de me amar...é invenção?
-É.
-Então do que adianta?
-Do que adianta o que?
-Ter vontade de me amar se esta vontade é invenção?
-É que invenção já basta.
-Basta pra que?
-Para estar vivo e para se ter vontade de permanecer vivo.
Ele não entendia tudo aquilo e viu um vendedor de algodão doce atravessar a rua em direção à eles.
-Os namorados querem algodão doce?
Eles se entreolharam incompreendidos e o mundo pareceu, naquela hora, desgarrar-se da gravidade.
-Queremos – disse ele.
-Quando você come algodão doce não parece que come vento? Seria melhor se fosse menos de algodão e mais doce.
-Como faz algodão doce?
-Não sei...Pra que saber?
-Só curiosidade mesmo.
Ficaram mudos até passar um avião barulhento.
-Quantas coisas se aprendem em silêncio? – disse ela com cara de insatisfeita.
-Uma.
-Qual?
-A morrer.
-Acho que a morte também não deveria ter um nome – disse ela.
-Por que?
-Por que a morte é namoro com impossível; tudo que é impossível na vida é possível depois dela.
-Quem te ensinou isso?
-Eu mesma.
-Você deveria trabalhar na televisão. Na televisão dizem coisas bonitas assim, sempre.
-Quanto dura um sempre?
-Quanto a gente quiser.
-Quero ser – concluiu ela – igual ao sempre.
Ele deu de ombros.
-Quero ser eu até onde eu quiser.
-Quero te contar um segredo...posso?
-Eu te amo, mas isso já basta.
Ele não entendeu outra vez a palavra basta.
-Não entendo este tal de basta, dá pra explicar?
-Não sei se dá pra explicar, mas dá pra falar.
-Então fala.
-Te amo. Mas acho que te amar já me basta. Não é preciso que me ame como te amo. Te amar sem saber me basta.
-Por que?
-Por que já dá pra saber que amor é coisa de se ter.
-Do que dá mais pra saber?
-Que tudo é invenção.
-Que mais?
-Que para amar basta amar.
-Não sei se entendi...nem mesmo entendo como é estar vivo. Como poderia ousar compreender que para amar basta amar?
-Talvez amando.
-E como se faz?
-Bastando.
-Bastando o que?
-Bastando amar.
-Mas e a vontade de ser amada também? Não é você quem diz que vontade e intenção não se divorciam?
-Não inventei esta vontade ainda.
-Por que?
-Por que me basta a minha própria vontade de amar e de me bastar amando sem saber do mundo.
-Quando a gente morre se basta? – perguntou ele.
-Sim, a morte existe por que a vida não basta.
-Que maldito inventou esse tal de bastar?
-Não sei...mas e daí? Não é preciso saber.
-Esse negócio seu de achar que não é preciso saber me atrapalha.
-Por que?
-Por que parece que saber das coisas não é importante.
Ela resolveu exemplificar. Nunca achou que deveria ser precisa com ele; mas como já havia lhe dito do segredo, continuou.
-Se eu soubesse de mim e de você, por exemplo, revelaria uma arquitetura de bobagens. Prefiro não saber que por detrás das coisas há bobagens. Saber das coisas é saber das bobagens das coisas.
Ele emudeceu, emudeceu, emudeceu. Enfim, resolveu lhe perguntar.
-Quantas bobagens preciso para ter vontade de amar?
-Acho que muitas. A fronteira entre amor e bobagem quem constrói é a razão.Por isso que para amar basta amar.
-Era difícil te fazer esta pergunta.
-Que bom que fez. Melhor do que fazer é lembrar. Você não acha?
-Por que?
-Por que, quase sempre, fazer é uma vez só e lembrar é pra sempre.
-Nem sempre. Vi um doutor na televisão que falava em perder a memória...e se dá pra perder a memória, não dá pra lembrar sempre. Não é?
-É...mas enquanto se tem a memória da coisa, se pode lembrar sempre da coisa.Se não se tem mais, não se lembra, mas aí não se tem mais.
Ela pousou as duas mãos sobre a cabeça e questionou.
-Dá pra lembrar sem ter memória?
-Não sei.
-Você vai lembrar deste dia?
-Se tiver a tal da memória, vou.
-Mas e depois?
-Depois do que? Da memória?
-É. O que vem depois da memória?
-Acho que o esquecimento.
-Pode vir ao contrário? Primeiro o esquecimento e depois a memória?
-Claro. Lembro e esqueço todos os dias que sou humano...que existo, por exemplo.
-Viver talvez seja ir, aos poucos, se esquecendo que se está vivo.
-E quando se perde a memória?
-Aí não se lembrará mais da vida, mas ela lembrará de você.
-É, é verdade: a morte só pode matar a vida e nada além disso.
-A morte é pouco, não acha? Só pode matar o que é vivo...
-Mas se morrer é pouco, como fica o viver?
-Viver é muito, mas não basta.
-E amar?
-Amar não é muito nem pouco. Basta e pronto.
-Não gosto dessa palavra: bastar.
-Por que?
-Por que bastar parece com bestar.
Ela, pela primeira vez, sorriu defronte a ele. E ele, pela primeira vez, viu desenho dela sorrindo.
-Bastar é bestar.
Ele abaixou a cabeça.
-Sempre achei curiosa uma coisa. Se eu disser você não vai achar estranho?
-Não.
-Uma letra sem outras não desenha nada. Juntas desenham de tudo. E se no lugar de uma letra vem outra, o desenho não é mais o mesmo.
-E palavra tem desenho?
-Tem. Quer ver?
-Quero! – exclamou ela.
Ele se aproximou da face dela e soletrou: pa-la-vra.
-Que desenho viu?
-Vi uma coisa.
-O que?
-Não dá pra desenhar o que vi, mas tem desenho por que vi.
Ele se afastou dela outra vez.
-Talvez o amor seja assim, não é?
-Assim como?
-Assim...uma palavra sem desenho.
(uma estrela pulou do céu)
-É.
-Acho que estou com vontade.
-Vontade de que?
-De te amar...para ver se me bastaria.
-Tudo bem. Quando a vontade passar, se lembre: ou acabou a vontade ou já é amor.
-Lembrarei.
-Só lembrará disso?
-Não. Também daquela estrela ali.
Ele apontou para a estrela que ainda estava caindo por detrás de um edifício e a gravidade agarrou-se outra vez ao mundo, deixando a estrela completar o salto.
Ela compreendeu: o tempo do céu não é o mesmo do homem; estar ali era como aventura de estrela à mercê da própria luz.
-Acho que quero namorar você.
-Tem amor?
-Ainda não – mas tenho vontade.
-Vontade de que?
-De ter amor por você.
-E você acha que a gente pode ter amor? Acho que amor não é coisa de se ter.
-Se tem sim. Como se pode dar algo que não se tem?
-Como é dar amor?
-Não sei, mas já vi darem.
-Viu onde?
-Na televisão.
Ele riu daquela miudeza. Depois retomou.
-Namorar você seria bom, mas não sou apaixonado.
-Não precisa ser apaixonado. Só precisa ter vontade de se apaixonar. Você tem?
-Tenho.
-Então já basta.
-Como assim já basta?
-Quando alguma coisa já basta não é preciso explicar mais nada.
-Onde aprendeu isso?
-Vi na televisão também.
-Você não acha que na televisão é tudo inventado?
-Acho.E tudo fora dela também é.
-Não acho.
-Então me diga uma coisa que não é invenção...
-Um fato não é.
-Fato pode acontecer em sonho?
-Acho que pode – ele hesitou.
-Então fato é invenção. Tudo que acontece em sonho é invenção.
-Ora...que não é invenção?
-Nada. Tudo é.
Ele ficou preocupado com o amor outra vez.
-E a vontade de me amar...é invenção?
-É.
-Então do que adianta?
-Do que adianta o que?
-Ter vontade de me amar se esta vontade é invenção?
-É que invenção já basta.
-Basta pra que?
-Para estar vivo e para se ter vontade de permanecer vivo.
Ele não entendia tudo aquilo e viu um vendedor de algodão doce atravessar a rua em direção à eles.
-Os namorados querem algodão doce?
Eles se entreolharam incompreendidos e o mundo pareceu, naquela hora, desgarrar-se da gravidade.
-Queremos – disse ele.
-Quando você come algodão doce não parece que come vento? Seria melhor se fosse menos de algodão e mais doce.
-Como faz algodão doce?
-Não sei...Pra que saber?
-Só curiosidade mesmo.
Ficaram mudos até passar um avião barulhento.
-Quantas coisas se aprendem em silêncio? – disse ela com cara de insatisfeita.
-Uma.
-Qual?
-A morrer.
-Acho que a morte também não deveria ter um nome – disse ela.
-Por que?
-Por que a morte é namoro com impossível; tudo que é impossível na vida é possível depois dela.
-Quem te ensinou isso?
-Eu mesma.
-Você deveria trabalhar na televisão. Na televisão dizem coisas bonitas assim, sempre.
-Quanto dura um sempre?
-Quanto a gente quiser.
-Quero ser – concluiu ela – igual ao sempre.
Ele deu de ombros.
-Quero ser eu até onde eu quiser.
-Quero te contar um segredo...posso?
-Eu te amo, mas isso já basta.
Ele não entendeu outra vez a palavra basta.
-Não entendo este tal de basta, dá pra explicar?
-Não sei se dá pra explicar, mas dá pra falar.
-Então fala.
-Te amo. Mas acho que te amar já me basta. Não é preciso que me ame como te amo. Te amar sem saber me basta.
-Por que?
-Por que já dá pra saber que amor é coisa de se ter.
-Do que dá mais pra saber?
-Que tudo é invenção.
-Que mais?
-Que para amar basta amar.
-Não sei se entendi...nem mesmo entendo como é estar vivo. Como poderia ousar compreender que para amar basta amar?
-Talvez amando.
-E como se faz?
-Bastando.
-Bastando o que?
-Bastando amar.
-Mas e a vontade de ser amada também? Não é você quem diz que vontade e intenção não se divorciam?
-Não inventei esta vontade ainda.
-Por que?
-Por que me basta a minha própria vontade de amar e de me bastar amando sem saber do mundo.
-Quando a gente morre se basta? – perguntou ele.
-Sim, a morte existe por que a vida não basta.
-Que maldito inventou esse tal de bastar?
-Não sei...mas e daí? Não é preciso saber.
-Esse negócio seu de achar que não é preciso saber me atrapalha.
-Por que?
-Por que parece que saber das coisas não é importante.
Ela resolveu exemplificar. Nunca achou que deveria ser precisa com ele; mas como já havia lhe dito do segredo, continuou.
-Se eu soubesse de mim e de você, por exemplo, revelaria uma arquitetura de bobagens. Prefiro não saber que por detrás das coisas há bobagens. Saber das coisas é saber das bobagens das coisas.
Ele emudeceu, emudeceu, emudeceu. Enfim, resolveu lhe perguntar.
-Quantas bobagens preciso para ter vontade de amar?
-Acho que muitas. A fronteira entre amor e bobagem quem constrói é a razão.Por isso que para amar basta amar.
-Era difícil te fazer esta pergunta.
-Que bom que fez. Melhor do que fazer é lembrar. Você não acha?
-Por que?
-Por que, quase sempre, fazer é uma vez só e lembrar é pra sempre.
-Nem sempre. Vi um doutor na televisão que falava em perder a memória...e se dá pra perder a memória, não dá pra lembrar sempre. Não é?
-É...mas enquanto se tem a memória da coisa, se pode lembrar sempre da coisa.Se não se tem mais, não se lembra, mas aí não se tem mais.
Ela pousou as duas mãos sobre a cabeça e questionou.
-Dá pra lembrar sem ter memória?
-Não sei.
-Você vai lembrar deste dia?
-Se tiver a tal da memória, vou.
-Mas e depois?
-Depois do que? Da memória?
-É. O que vem depois da memória?
-Acho que o esquecimento.
-Pode vir ao contrário? Primeiro o esquecimento e depois a memória?
-Claro. Lembro e esqueço todos os dias que sou humano...que existo, por exemplo.
-Viver talvez seja ir, aos poucos, se esquecendo que se está vivo.
-E quando se perde a memória?
-Aí não se lembrará mais da vida, mas ela lembrará de você.
-É, é verdade: a morte só pode matar a vida e nada além disso.
-A morte é pouco, não acha? Só pode matar o que é vivo...
-Mas se morrer é pouco, como fica o viver?
-Viver é muito, mas não basta.
-E amar?
-Amar não é muito nem pouco. Basta e pronto.
-Não gosto dessa palavra: bastar.
-Por que?
-Por que bastar parece com bestar.
Ela, pela primeira vez, sorriu defronte a ele. E ele, pela primeira vez, viu desenho dela sorrindo.
-Bastar é bestar.
Ele abaixou a cabeça.
-Sempre achei curiosa uma coisa. Se eu disser você não vai achar estranho?
-Não.
-Uma letra sem outras não desenha nada. Juntas desenham de tudo. E se no lugar de uma letra vem outra, o desenho não é mais o mesmo.
-E palavra tem desenho?
-Tem. Quer ver?
-Quero! – exclamou ela.
Ele se aproximou da face dela e soletrou: pa-la-vra.
-Que desenho viu?
-Vi uma coisa.
-O que?
-Não dá pra desenhar o que vi, mas tem desenho por que vi.
Ele se afastou dela outra vez.
-Talvez o amor seja assim, não é?
-Assim como?
-Assim...uma palavra sem desenho.
(uma estrela pulou do céu)
-É.
-Acho que estou com vontade.
-Vontade de que?
-De te amar...para ver se me bastaria.
-Tudo bem. Quando a vontade passar, se lembre: ou acabou a vontade ou já é amor.
-Lembrarei.
-Só lembrará disso?
-Não. Também daquela estrela ali.
Ele apontou para a estrela que ainda estava caindo por detrás de um edifício e a gravidade agarrou-se outra vez ao mundo, deixando a estrela completar o salto.
Ela compreendeu: o tempo do céu não é o mesmo do homem; estar ali era como aventura de estrela à mercê da própria luz.
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