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Antares e suas revelações

Não seriam estas noites pedaços-ladrilhos da minha parte escura?
Percebo que não há somente partes escuras-claras: há meios-tons por aqui; são ladrilhos – muitos – entre um mais claro e um mais escuro.
Ademais, a noite revela a mais escura das partes. Vem da noite a hora de conhecer estes ladrilhos e de , com eles, misturar um desmaio sonolento com a vontade de saber-me detentor desta parte mais escura.
Ao se misturarem estes ladrilhos à vastidão do céu pareço catar-me em pontos claros, e ainda reconheço luz em partes deste meu escuro maior.
É como se a noite fosse uma revelação de mim: o ladrilho mais escuro misturado em partes claras(como pontos).
Também me cato entre estes meus mais escuros, embora, à noite, estes ladrilhos pareçam mais pintados de preto. Talvez seja mesmo no escuro destes ladrilhos(ou no mais escuro deles) que me vejo, e daí a noite parecer-me revelação de mim através de um escuro sonâmbulo entre luzes acordadas.

[somente o relógio deste lugar reconhece a noite como uma experimentação de mim, pois ele vai contando(em pontos) quantas luzes habitam meu ladrilho mais escuro - o que com a noite me faz experiência de mim]

O mais escuro ladrilho se revela não como tecido de fundo, no qual crivaram-se minhas explosões(pontos), mas como outro ladrilho ou como outra explosão do preto na cor; pois vejo, em cada ponto que brilha, todas as cores, embora para completá-las precise, eu, da experiência com o mais negro dos ladrilhos(por onde não se vê cor), mas que me revela.
Suspenso entre meus tempos, a revelação do mais preto ladrilho,a noite, me faz experimentar-me como céu.
[como se o céu fosse experiência todo dia]
Só assim reconheço que, no íntimo deste meu ladrilho mais preto e ainda nos ladrilhos mais claros e, finalmente, nos que estão entre ambos, há um infinito. Torna-se esta noite, enfim, um reconhecimento de um sem fim intransferível ao dia que, embora ilumine, esconda em sua duração meus ladrilhos(ou os seus: agora já somos dois) não tão-pretos.
Numa experimentação de pretos, recorto nos olhares infinidade de ladrilhos escuros...e o que me dizem? Incrivelmente, não falam em silêncio(como desejariam tais poetas); falam(espanto) em alta voz – daí se poder ouvir o que se pode ver nos olhos, daí ouvir-me a noite ao olhar estes ladrilhos pretos.
Me falam também, estes, de saudades intransferíveis e de durações.
Todo dia/toda noite, a duração dá longo abraço no corpo que chamam humano. O abraço da duração(espanto) não dura, ele perdura sem pausa todos os dias e todas as noites; parece ser eu mesmo: o abraço da duração é consigo.
[sou a minha duração como sou o meu abraço]
Daí: abraçar-me.
É este abraço da duração(que sou eu mesmo abraçando-me) ,durante a noite, que faz o tocar encontrar meu ladrilho mais preto. E não basta só medo para deixar-se ser duração; é preciso experimentá-la, pois só se é duração quando se a experimenta.
Agora:
toco meu ladrilho muito escuro – próximo à minha Antares – percebo um amontoado de sonhos que me reserva o céu do olho fechado; sim, pois há outro céu depois de mim quando meus olhos se soterram para dormirem-se(é o olho que parece dormir). Não há como escapar dos céus. Ainda percebo o ladrilho preto perto à Antares me revelar que para ser duração é preciso cansar-se um pouco de viver: é que, mesmo morto, a duração é implacável, pois existe no passado, presente e futuro – (espanto) – a duração de hoje é atemporal e há de durar até mesmo para uma rosa.
A duração da rosa é ainda tão sublime quanto a forma do seu próprio tempo.
Acho que exatamente em Antares há um ladrilho muito preto ainda(são constelações de ladrilhos por aqui). Este preto de Antares parece revelar a experiência do não vivido, pois, já o sinto morto, embora ainda possa tocar tal ladrilho;(outro espanto): os ladrilhos (do mais preto ao mais iluminado) possuem certas vidas miúdas que perduram na minha duração.

Daí ser a noite revelação de outras vidas no céu do corpo, pois já me sinto todo céu ou todo ladrilho desde que começou tudo isso.
Talvez, enfim, o propósito da noite seja o de revelar que somos duração de ladrilhos(pretos, luminosos, de nós mesmos) atemporais...
pois o céu não fenecerá de morte, sim de tempo.

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