que seja passageiro
o que passou
que seja passarinho
o que não voou
e que seja ninho
o que ficou
Thiago Lobão
rascunhosdesois.blogspot.com
@rascunhosdesois
que seja passageiro
o que passou
que seja passarinho
o que não voou
e que seja ninho
o que ficou
Thiago Lobão
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um mesmo mundo
nunca sempre mesmo
visto por outros olhares alhures
global sempre e quase profundo
com mesmos globos rasos
quase nunca os mesmos no fundo
olhos, órbitas e mesmices a esmo
Thiago Lobão
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@rascunhosdesois
(comendo misto quente
e esquecendo da gente)
pé sujo cabeça limpa
não pise no pensamento
seja pá e ímpar
uma grama de alumbramento
pó de palavra prima
gama de solo e seres
não pare
não negue
não pire
no nó
cave até aonde cabe a asa
do seu eu só
costure até onde dure
o tempo de contar de si
ao Sol
(comendo cachorro quente
e alimentando fome de gente)
Thiago Lobão rascunhosdesois.blogspot.com @rascunhosdesois
quando acaba um grande amor melhor nada dizer
a saudade lancinante e falante se anuncia
e o vazio da amante no peito infla de dor e poesia
quando acaba um grande amor melhor nada fazer
deixar que se recomponha sozinha a espontânea sina
em forma de chama que é amar
que aquece e até inflama e que acontece e desaparece sem avisar
e em qualquer lugar
quando o grande amor acabar não deixe que se acabe em você
a louca doce mania de
um outro adorar sem possuir
aguar sem inundar
tornar-se parte sem nunca ter sido
amar sem regozijo ou culpa ou excesso
se o amor acabou é por que já sabe dos desígnios e desesperos de si
das suas delícias e disparates inenarráveis e repetíveis
e reserva bom tempo na leira para boas colheitas
e guarda bom vento na casa do coração
e inventa até borboleta do que antes habitava só o chão
não é para deixar o amor para lá
nem fazê-lo esperar até sarar
nem noutro amor novamente se afogar até se esquecer
pois amar é um verbo árvore e ave
fênix que pode se reconstituir das próprias cinzas em e para qualquer altura
criador de raízes irrigando um profundo desconhecido deserto de outrem
e que tem bons voos para quem o acompanha levemente intenso e suavemente voraz
o amor não tem tempo mas existe o tempo de amar
que é toda hora
ele não tem muito tempo para queixas nem promessas
o amor é uma prática
e ele sem tempo nem espera
é reunião e troca até sem tocar com qualquer coisa
amor não foi feito para durar para colar para calar para berrar para possuir para gastar
é cíclico tal qual astro orbital e se move movendo tudo e nada
e da voltas entre nós em sua forma mais crua de amar-se sem venerar a si
o que é amor?
este nobre vagabundo, esta palavra sem desenho...
quem sou eu para falar de amor
senão mais um em sua multidão colorida de mansas flores indomáveis?
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conexões incausais boiando
entre bolhas de acasos casuais
algo está atomizado sem ser átomo
desde azimute até ao nada
tudo parecido antes
antes do sentindo
antes do evento
corações inflando ocos e ecos
pontes aos lados ilhados dos outros
fronte nossa diante de si e do estampido
do viver o perceber face a face ao percebido
nem tudo está achado
e nem perdido
tudo está prestes a fazer sentido
no sentimento do pensamento
à beira do tempo
do desconhecido
Thiago Lobão - rascunhosdesois.blogspot.com - @rascunhosdesois
nas noites que te amei constante
fingindo não lembrar de ti
foi quando dei para amar mais que bastante
até esquecer de mim
incauto sem saber que o amor
depois faria comigo tanto e tudo o que fiz
sem tirar nem pôr
altivo amador cruzei a estrada
planalto sem beira em breu
tentando apagar os vestígios
de quando fui feliz ao lado teu
e herdei das horas a fio
inúteis arrebóis de agora
sem você e pelo tempo olvidado
uma solidão solar de sertão cresceu
na cidade, na plantação e até no arado
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se junto, sorri e inexiste
se disjunto, sorri e insiste
na cantilena da des-vontade
em quem sente
entre ter nascido
não ter sido
e ser ido
sem parada ou paradeiro
é saudade estrada sem sentido
bicho debaixo da pele
flor insana do clichê das horas
irriga e claudica coração mundano
des-humana senhora
caudilha e bem-aventurada
para amantes de outrora
Thiago Lobão rascunhosdesois.blogspot.com
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