Cisma do sonho
Noite de maré cheia quando acordei e você não estava ao meu lado. A chuva, ora fina, ora grossa, respingava no bananal abaixando as palhas e criando riachos na areia, misturando água doce com salgada num banho de líquido insípido. Despertado pelo clarão das velas dentre as sombras feitas pelas cortinas esvoçantes do nosso quarto, tive a intuição de que você estaria vendo a tempestade rodear a ilha da varanda, e de que o aguaçeiro permaneceria ao longo da madrugada. Desci ainda sonado as escadas e escorreguei no limo da Passagem das Borboletas, enquanto um relâmpago clareou o fundo anoitecido da baía e retumbou na noite que há poucas horas fora um lindo dia; no qual passeamos como dois cometas, resvalando um no outro, entrelaçados feito um corpo só, libertos e rindo daqueles por quais passávamos e que se espantavam com a nudez nunca vista em outra veraneio. Avistei seu cabelo preso e belo e caído por sobre suas costas - meu cais seguro - encoberta por um pano colorido como você gostava da maioria de seus tecidos. Como a proa de um barco entre o parapeito coberto de flores e o preto infinito do tumultuoso e monotônico escuro sobre o mar, parada e com a face oculta para mim, estava você, uma estrela brilhante no meio da revolução incessante das nuvens se precipitando. Virou-se você para mim e sorrindo sem que eu precisasse me anunciar, decretou:
-Meu dengo, venha ver a noite comigo e me abraçe.
-Se ficarmos vamos nos molhar mais. Te busquei na cama e você não estava nem lá e nem na sala...
Abracei-a como se fosse toque de encontro e despedida sem saber motivo, contemplando a noite e seu perfume sem perfume que eu amava, com a profundidade da superfície dos poros, e me aqueci em sua nuca. Disse ela:
-Sonhei que no passeio de barco amanhã, uma onda nos virava na boca da barra e que ficávamos boiando a deriva entre a ponta do manguezal e o farol das rocas. Você acha que ali é ruim para naufragar?
-Lá é como te amar aqui, meu dengo, perigo e salvação, ora perco o fôlego, ora dá pé... Quem sabe? Se a rainha nos guiar e não sermos levados pela corrente de retorno, chegamos nas pedras da enseada e nos fixamos por lá...
E ela completou:
-E depois voltamos andando, quase secos, quase molhados, na maré baixa, com as pernas bambas e arranhadas de tanto nos querer de amor...
-É. Vamos voltar para cama?
-Não quero agora...
E completou
-No sonho, nos perdíamos entre as ondas lá na saída da barra e só nos achávamos na Enseada do Urubu no dia da festa do vilarejo. E que só nos saciávamos nas pedras com nossa mansa fúria apaixonada depois do desespero do afogamento se fóssemos obedientes à deusa e nos amássemos serenos a partir de agora, e que esta prenda seria a retribuição dela aos presentes que lhe oferecemos hoje. Iemanjá disse que se ficássemos na borda do amor, no afã incessante e febril do sentimento de sermos sempre dois, iríamos nos perder no profundo mar para sempre.

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