Versão para a web no fim da página para músicas e clipes

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Para me salvar

devo esquecer:
a deixa
a queixa
o beijo
o desmantelo
o desenho
a foto
o fato
o afeto

devo esquecer:
o projeto
o teto
a parede
a sede
o sexo
o nexo
o elo
o eco
o oco

devo esquecer:
o embaraço
o tropeço
o começo
a carícia
a casa
a tempestade
a ilha
o passo
o pulso
o medo

devo esquecer:
a vela
o barco
o marco
o abraço
o achado
o descaso
a rua
o laço
o estrago
a tristeza

devo esquecer:
o rasgo
a ruga
a paisagem
a aventura
o tormento
o veneno
a artéria
o cruzamento
a risada
a entrada
o jantar
o passeio
a praia
a pegada
o presente
a cegueira
a esteira

devo esquecer:
a dívida
a vida
a vinda
a ida
a palavra
o gesto
a flor
o álbum
o recado
o endereço
o cheiro
o primeiro
a noitada

devo esquecer
devo esquecer
devo esquecer
de novo um querer
para me salvar
para não sofrer
senão me afogo
senão me queimo
se não deixar queimar
se teimar
em não me afagar
vou me perder
devo esquecer
devo esquecer
devo esquecer
para de novo amar
para de novo me amar
para de novo me salvar

Thiago Lobão               rascunhosdesois.blogspot.com

Feliz era nova

o derradeiro crepúsculo da já ida era

desmonta a luz nos confins da baía

e explode do casulo em espera

breu tenaz no firmamento e borboleta sideral


quando você mirar Júpiter navegando vizinho a Saturno

com seus olhos - dois sóis azuis - taciturnos

do amor quimera

quem sabe não esteja se enxergando

em outra errante esfera


em outro modo de deixar ser o que já era

e de despertar em anoitecido coração

um sentimento de adorar que entre mim e você

entre praias, planetas e o querer

reverbera

Thiago Lobão              rascunhosdesois.blogspot.com

Recado (Música: Ian Lasserre / Letra: Thiago Lobão)

fale lá
o que tiver de ser aqui
não deixe para se perder depois
agora é que virá

olhe bem
o bom é navegar em nós
um nó mais que aberto, atroz
jangada vai virar

no batente
em jogar de braços
abraços dados no mar

se aproando
em sentimento de rocha e esperança
farol no coração põe-se a dançar

tarde
que é filha de dia com lua de meia noite
com sol no meio de um tempo
que é manso e açoite

deixar de ser
é beira do que será

Para ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=TA2DVVY7x_w

Tanta tonta teoria

toque aqui!
sabe o que é isso?
é saudade...
é só no joelho
ou no corpo inteiro?

na derme 
sensível erupção trans-celular
no cerne 
invisível sensação a constelar

da para tatear ente ausente
ou em presente ausência matar?

cromossomo ancestral
somos
em molecular caos
somatizando até esquecimento
e o que apalpar amamos

sabe o que é isso?
é saudade...
é só no relevo da pele
ou funda memória da eterna alteridade?

é enlevo da superfície em arrepio?
ou desvelo de genealógico ser em rodopio?

Thiago Lobão             rascunhosdesois.blogspot.com

Lá e cá

da ávida cavidade de século

do poço perplexo ou útero

irrompe-se vida em vocação de luz

e dentro da tez terrosa aflora

à flor da Terra a flora do agora


planeta pendular desponta 

em errante eclíptica elíptica

que desaponta beleza humana 

em seu não lugar de alteza e já tonta


diminuto mundo velho

em minuto de areia cadente

em minúcia de autor ausente presente

já outro imenso ovo total em voo


azulado bólido falido

estrada ao nada e estrado sideral

grilhão e plataforma disforme

para algum outro desconhecido

ponto de apoio carnal


Thiago Lobão      rascunhosdesois.blogspot.com

"Quem é mesmo não diz"

como disse amiga minha            Para Ana L.
amigo é quem com você fala
de trás pra frente e sente

não é quem se cala
nem quem assisti tal qual TV
não é quem te segue
nem quem suga VC
não é quem só te brinda
nem quem brinca de dar nó
quem é quem nesse quiprocó?

como dizia o poeta, atual ainda
"amigo a gente não faz,
reconhece"
quando se goza de saúde
ou quando coração adoece
quando é dia de aniversário
ou quando se vai no ataúde
quando sem receio ele se despe
ou se contigo sem calendário

pode ser e não ser amigo?
eis a questão!
de conhecido a reconhecido
próximo e distante
fogo e pavio
amigo da gente só fica desaparecido
se for sincero pra abandonar o navio

Thiago Lobão    rascunhosdesois.blogspot.com

Moradoras

na minha casa
tudo que é caixa vive aberta
para caber luz e nova revoada
ou antigo amor de praia deserta
para fazer respirar o incabível
e deixar sair o que não cabe

na minha casa
tampa sua função não sabe
de encobrir sentir incontível
e sem encaixe ganha sentido de asa
para desfazer o que é impossível
ou levitar quando te chamo namorada

em minha casa
uma caixa abre outra
e a casa caminha
entre suas várias moradas
e as moradoras caixinhas
na minha caixa tem
incontáveis casinhas

Thiago Lobão   rascunhosdesois.blogspot.com

Ápice e bis

se lápis apontar
aquarela desaparece
grafite repousado não cresce
e em não se pontuando
quem desenharia cor esquece

entra por um
e sai por outro e beija 
contador se quiser
que seja e conte outra
história de apontador

Thiago Lobão    rascunhosdesois.blogspot.com

Com tato

a gente não toca o tempo
que toca barco indiferente
diferente de nosso toque

atocaia ente na toca
oco tocando ao fundo seu eco
e o intocável

enquanto der tempo de ser óca
até quando tempo se der por certo
de destocar o favo provável inefável

estaria este nos prestando favor
ou melhor não tê-lo sabido?
por qual ser trazido se com tempo não se for?

Thiago Lobão     rascunhosdesois.blogspot.com

"De Caymmi e João Gilberto"

quem salva Salvador?
suas ladeiras ao céu desiguais
lendas sacras carnais
seus infindos povos de dentro e de fora
Roma negra matriarca da prole
Salvador salvadora
da Alegria e Tristeza sen hora

quem salva Salvador?
da selva e da des-salvação
é primaz do Brasil no pé e o leva no coração
Salvador te salva ou não?
salva vidas da cor
aborígenes e Áfricas entre dois faróis d´além-mar
usinas de línguas e afetos que afetam 

afago e indignação de atos e fatos
o abraço profundo salgado de sua baía
é um na ida e outro na chegada
o mesmo na intenção
nunca mais esqueço do passeio em sua jangada
eletrônica e canibal
doce arredia mansa todo dia

de perto não é normal
pele sua que sua e soa dendê
de que lado Salvador te vê?
terra do ver para crer
e do crer para ver
de longe saudade imensa capital
ano novo e lua nova do São Salvador

Thiago Lobão                    rascunhosdesois.blogspot.com

Gêne-se

gestar um gesto na caixa

do córtex ao coçar

é quem nele mora ou é corpo

que está vivo ou morto?


do gin ao gen no ato

gastar a jato um jeito de gostar

de outrem que enfim goza

ou de narciso a se jactar?


gametas juram janelas em prosa

gosto oco de jorrar zigoto

pelve da gema e do ovo num polvo

que geme gíria na gama de renovar


Thiago Lobão       rascunhosdesois.blogspot.com

Cisma do sonho

Cisma do sonho

Noite de maré cheia quando acordei e você não estava ao meu lado. A chuva, ora fina, ora grossa, respingava no bananal abaixando as palhas e criando riachos na areia, misturando água doce com salgada num banho de líquido insípido. Despertado pelo clarão das velas dentre as sombras feitas pelas cortinas esvoçantes do nosso quarto, tive a intuição de que você estaria vendo a tempestade rodear a ilha da varanda, e de que o aguaçeiro permaneceria ao longo da madrugada. Desci ainda sonado as escadas e escorreguei no limo da Passagem das Borboletas, enquanto um relâmpago clareou o fundo anoitecido da baía e retumbou na noite que há poucas horas fora um lindo dia; no qual passeamos como dois cometas, resvalando um no outro, entrelaçados feito um corpo só, libertos e rindo daqueles por quais passávamos e que se espantavam com a nudez nunca vista em outra veraneio. Avistei seu cabelo preso e belo e caído por sobre suas costas - meu cais seguro - encoberta por um pano colorido como você gostava da maioria de seus tecidos. Como a proa de um barco entre o parapeito coberto de flores e o preto infinito do tumultuoso e monotônico escuro sobre o mar, parada e com a face oculta para mim, estava você, uma estrela brilhante no meio da revolução incessante das nuvens se precipitando. Virou-se você para mim e sorrindo sem que eu precisasse me anunciar, decretou:
-Meu dengo, venha ver a noite comigo e me abraçe.
-Se ficarmos vamos nos molhar mais. Te busquei na cama e você não estava nem lá e nem na sala...
Abracei-a como se fosse toque de encontro e despedida sem saber motivo, contemplando a noite e seu perfume sem perfume que eu amava, com a  profundidade da superfície dos poros, e me aqueci em sua nuca. Disse ela:
-Sonhei que no passeio de barco amanhã, uma onda nos virava na boca da barra e que ficávamos boiando a deriva entre a ponta do manguezal e o farol das rocas. Você acha que ali é ruim para naufragar?
-Lá é como te amar aqui, meu dengo, perigo e salvação, ora perco o fôlego, ora dá pé... Quem sabe? Se a rainha nos guiar e não sermos levados pela corrente de retorno, chegamos nas pedras da enseada e nos fixamos por lá...
E ela completou:
-E depois voltamos andando, quase secos, quase molhados, na maré baixa, com as pernas bambas e arranhadas de tanto nos querer de amor...
-É. Vamos voltar para cama?
-Não quero agora...
E completou
-No sonho, nos perdíamos entre as ondas lá na saída da barra e só nos achávamos na Enseada do Urubu no dia da festa do vilarejo. E que só nos saciávamos nas pedras com nossa mansa fúria apaixonada depois do desespero do afogamento se fóssemos obedientes à deusa e nos amássemos serenos a partir de agora, e que esta prenda seria a retribuição dela aos presentes que lhe oferecemos hoje. Iemanjá disse que se ficássemos na borda do amor, no afã incessante e febril do sentimento de sermos sempre dois, iríamos nos perder no profundo mar para sempre.


Thiago Lobão                                                  rascunhosdesois.blogspot.com