Versão para a web no fim da página para músicas e clipes

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Outra primeira vez

outra vez oceano entre nós
outro ventre 
outro entre 
outra foz
outro amar
outra maré
outros rumos e outros remos
será que um dia esteves na mesma rota
ou era vertigem?

teu semblante de mistério
ora outro ora o mesmo da juventude
cúmplice de nossas madrugadas: luar a leste
quase novo
quase cheio
quase velho

lua: pedra de marfim que sempre será a tua
o beijo que nunca houve
teu olhar ainda repleto de perguntas
a refreada febre de uma paixão inexplicável

é o tempo amigo de boas vindas e idas
de amáveis amores que por descuido ou cuidado
nos encaminham entre tempos e gentes
entre as eternas primeiras vezes

O invisível também é belo

poema para o que dizer?
que quem aponta com um dedo
volta outros quatros para si
que o calar e o falar têm a mesma origem
que quem já pré-vê a realidade cegou-se para as visões

poema para o que fazer?
cuidar das florestas daqui e da réstia
erguer a face diante da face
transferir pontos e vistas

poema para o que tecer?
vocabulário no qual coisa é só coisa
e pessoa é só pessoa
fio entre próximo distante e distante próximo

poema a quem dedicar?
a todos e a ninguém
ou a uma nuvem:
que é imposível de se escrever

Des-Poesia de pós-f(r)ase

ontem na rede lancei uma frase
não foi ataque nem litígio
nem rancor ou coisa para alguém que se tinha
mas se coube o chapéu ou bateu na trave
fique à vontade e supere o entrave
te desejo boa tarde

hoje aqui frase de palavra mole ou dura não há
o zelo, o alarde, a pergunta
aonde devem ter ido parar?
e quanto aos simulacros e aos silencios?
que longe daqui encontrem donde se apoiar!

agora há aqui e vou te contar
tudo que em poesia (ou des-poesia) 

ontem e hoje já havia e há
coração tranquilo e a beleza do ritmo
de alguém que não espera ouvir bom dia para desejar

Bilhetes

viver é bom e passa depressa
poesia é beleza que em todo tudo resta
é festa na fresta

paira
parada leve pesada
alada veloz em tudo donde vida e morte permeia

apressa e sem pressa também some e reaparece em outro continente
igual a bicho nuvem sentimento

Não existem bons entendedores, existem entendimentos

para transmutar mordaz sordidez do mundo pós-caducante
só correnteza veloz de coragem de primeira vez de infante

toda delícia de viver tem carícia infinda de prazer
todo prazer 
se perde perícia 
perde beleza de reviver

para afastar banal malícia daqueles que dissimulam
boa dose de largo riso e coração limpo aos que os adulam

deixar a vaidade pra lá
deixar fluir entre os dedos sinceridade de estar e amar
só por gostar de amar e de estar

Anotações noturnas

                                                             Para G.

nosso amor de tempo em tempo

a há tempo
é amor em todo momento
de estação em estação
se espera e não se desespera em outros jardins
é fortaleza tranquila
guarida ou canto onde moram os sins
em tudo nosso
nosso amor sem um nome anonimo feliz
é o que temos e queremos
é o que está de movimento a movimento


Ampulheta Mãe

Acostumar-se a existir
Ser
Rabisco de tempo e gente
Andarilhar a vida
Do breve ao eterno inventar

Manhã
Hora de reaprender luz
Que se pensar é se esquecer
Reinventar-se


Ponte e ponteio

uma porta aponta para ponte
outra para fronte
outra para céus de seus olhos ou para precipícios 

aonde pode ser um fim
aonde pode ser um princípio de particípio
um périplo de ondas
peripécia de horizontes

uma ponte aponta para o que?
o que mora antes e depois do seu ponto?

ponteio aponta e aporta outra nuvem
que outra ponta em forma de ponte pinta
já se foi repentinamente
um ente de hoje e de sempre
horas concretas aventureiras

chega continuamente
na ponta do entre e de dentro da fonte
calmaria de ponteio para qualquer tempo de onde


Notas 4

coração suave no corre do centro
bate lento insistente no cerne pós-barroco da urbis

coração concreto por todo corpo e de sentimento
pulsa ritmos afora adentro da orla à pubis


Incendiários corações

os minutos primeiros da chama
chama o fogo xamã

os minutos primários do fogo
em fogo hão de findar o ar

os encontros de vidas e de sonhos
boiados de dentro da chama 
do fogo 
do mundo
dos corações

Breus seus brios

um muro
dois nortes
três frontes
os céus

se nao souberes o verbo
erro já sem eco reverberar seria
regalia de espinho e trovoada
o oco ao léu por vias de véus

titubear em caminho é dom
pode ser bom ou nada
ser ou não ser o on ou o fel
até ser redemoinho cantada

quem sabe numa esquina te beija
quiça na quina alada te seja
caminho não é coisa de se ter
reaprende raiz asa voar o ninho

é novo traquejo num oco da estrada
é maré espraiada revoada de ser

Antirepresentado

é a trip
é o tranco
é a tripa
é o troppo
é a tropa
é o treco
é o junk 
é o troco
é o Temer
é o Trump

Horizontes verticais

não há nada lá
depois da ponte ou da semente
depois da estepe
depois da cidade
depois da atmosfera ou do quark

não há nada lá
depois da festa
depois da borda
depois do riso
depois da intuição

e lá o que há?
as profundidades de uma flor?
todas as costeiras terrestres possíveis?
um punhado de carbono? 
caos ou nadas?

e lá o que há?
uma galeria de telas flutuantes?
o ar e os condores?
uma usina de nuvens?
um baile sem fim das esperanças?

não há nada lá
além do que cabe em um alcançar

Notas 3

no sonho 
uma onda de palavras inundava a praia pensadora

e numa manhã
onde o sol
era plena poça de calor
próximo distante morador da retina

palavras falantes aos ouvidos de quem as escuta falar e ouvir

belezas nos olhos de quem via beleza no visto e no ver

viver é ver o riso
navegar é precioso querer